segunda-feira, 28 de abril de 2008

superstição

Chovia, e eu morria por dentro que nesse tempo não tinha como te ver. Era como se o mar estivesse no céu e quisesse voltar pra casa ao som de orquestra! Na boca eu sentia o sal de lágrima de saudade; me liga?
Em três segundos acabei com o pedaço de torta na geladeira, andei sem saber pra onde, liguei a TV, era só aflição. Quis telefonar, dizer um olá carinhoso; que saudades d'ocê, neguinho. Mas você do seu lado podia estar com qualquer outra, entao fechei os olhos e pedi paz; minha mente ficou branca, amarela, mel, flor de liz, cheiro de bebê, sorriso de criança, borboletas, cachoeira, você. Não, você não! que com você no pensamento não tinha paz. Bom mesmo era você em mim, sussurrando em meu ouvido, você tomando café e me puxando pro seu colo. Melhor era você matéria, não idéia, que a idéia de você com outra me atormentava. E fazia tanto tempo que as suas deviam existir a granel; se não fosse assim o telefone já teria tocado; sua voz me sufocando de beleza há dez mil horas.
Então eu tremia, com a boca entreaberta; te imaginava. Cadê seus olhos, seu par de mãos, sua nuca, tudo! Idéia maldita me matava uma vez mais; me cobri, acendi um incenso e um cigarro, em vão. Cantei, liguei pra amiga, solucei e perdi a cabeça num instante, pra quê.
Joelmo miou lá da cozinha; vem cá, Joelminho! Ele vinha manhoso e mais negro que nunca : mamãe tá saudosa hoje e não te deu atençao, né ?
E nem vai te dar. Alcancei o cordão de pérolas, meu vestido quase rosa, as sandálias na bolsa e a bota no pé. Acendi outro cigarro enquanto descia as escadas, corri pela chuva pra alcançar o carro.
O trajeto foi árduo e minha cabeça era um encontro de rios. Estacionei na entrada de sua roça, fui andando como se não chovesse; não pensava e nem tentava, que pensar ia estragar tudo.
Você então me abriu a porta com um sorriso cansado, me puxou pra mais perto: que saudades d'ocê, neguinha.
Suspirei.

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