segunda-feira, 28 de abril de 2008

desagradou-se


parou aos trinta anos do trabalho incansável, das manhãs tiradas a café, dos cigarros depois do almoço, do marido da barba mal feita. parou por alguns minutos.
começou pelo início, nada mais óbvio! as coisas se encaixavam. ela não via o erro, ninguém via o erro: o que os olhos não vêem...era bom. era que nem todo bom começo.
quando se deu conta de que a perfeição não poderia de fato existir, se deu conta do erro, e quis de qualquer maneira tirá-lo do mundo. arranhava, e gritava, e pedia, e roubava, e vestia, e riscava. era um quebra cabeça de atitudes estúpidas, porém dignas, e, por um dos lados, belíssimas. e toda dor que poderia resultar dessa raiva mal encarnada ficou presa num cantinho escuro.
então, sem dor, e sem raiva, ela descansou por um tempo. saiu do mundo, estalou os dedos, conheceu o que teve vontde de conhecer. gastou sua lista de desculpas esfarrapadas. sorriu à todo infortúnio: se amou.
e depois de se amar quis saber como era amar os outros e saiu no mundo. dessa vez fechou seus olhos a seu proprio erro; e era só amores, só loucuras, só gente nova !
e começou a ficar curiosa e um dia vasculhou tudo da vida, até achar uma caixinha preta, num cantinho meio apagado, uma coisinha miúuda e sem graça.
aí veio o que deveria ter vindo.
e ela quis misturar tudo de certo e errado, quis saber o fim , o pé, o meio, a cabeça, o começo. cansava em poucos segundos, perdia toda e qualquer confiança no mundo, e permaneceu estagnada.

voltou de seus minutos e soube que nunca houvera trilho algum.
é...desagradável.

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