segunda-feira, 28 de abril de 2008
mesa de café
Sabe o que eu me lembro?eu me lembro que desde o primeiro beijo ele me pegava forte a cintura. Não por ser homem demais, nem por luxuria: era pra segurar o tempo, pra não me deixar ir. Achei injustiça o que eu fiz, de tentar a sorte depois dele esperar por tanto tempo um casamento com véu e grinalda. Mas tinha solução? Me deixei levar pelas mãos confusas que quando se esqueciam de minha cintura voltavam a buscá-la na multidão.
E ele tinha muita ternura. Tanta ternura que não sobrou pro toque... consigo até rir se me lembrar da mão calejada caminhando incontinuamente por meu corpo; às vezes ele tremia e eu tinha vontade de rir. Mas que coisa, eu sempre tenho vontade de rir. E o beijo chegava a ser desgraça; nada dava certo e no meio do carnaval eu queria sempre mais. Sempre mais do jeito desajeitado, sempre mais do olhar surpreso na estrada vazia e escura com vista pra lagoa, vem vindo carro? Quando nao vinha eu o empurrava pra grama molhada e ele fechava os olhos e deixava transparecer o nervoso e aquela felicidade de criança. Eu tinha vontade de falar pra ele que sabia que era amor e que achava a coisa mais linda, que queria sentir igual e fazer dele a pessoa mais feliz do mundo. Chegava a doer. Doía porque eu não tinha luz pros dois, nem só pra mim, doía porque eu era incapaz de tamanha felicidade. Tinha que balançar, correr, gritar; ele não entendia que eu tinha dado toda minha vida e não era suficiente.
Na hora da foto ele vinha e descansava as duas mãos em mim. Se eu virasse e o beijasse e falasse o quanto ele faria qualquer mulher feliz, no meu mundo, o quanto a malandragem dele escondia o coração mais bonito que eu já sentira, o quanto as ações tinham ternura, cacete! Ele não iria entender, ninguém falava; eu achava tudo lindo e sabia que não dava, não sabia pertencer a ele.
A gente foi seguindo. Sem falar muita coisa e as vezes eu explodia e ele fazia cara de quem nao sabia; querendo explodir também. Quase febril de tanto amor por mim, suava frio, e eu ficava mais infeliz de estar sempre colaborando pra infelicidade da pessoa que mais amava no mundo. Um dia virei pra ele e disse (ou imaginei dizer?): decidi me dedicar a voce, como nunca me dediquei a ninguem. Pensei em falar que era a primeira vez que tinha necessidade da voz de alguem, de visitar alguem, de saber da vida sempre, dividir sorvete, ver filme calado, lembrar sozinha e chorar de tanto amor dentro de mim . Nao cabia mais e quando a gente ama é claro que a gente cuida além de querer sempre o bem estar.
A gente não dava certo e era óbvio. Era bonito demais o que tinha entre os dois e todo mundo via que era forte. Eu chorando no bar, você se declarando na praça... " quero ele se sentindo no topo do mundo mas nao sei como isso se faz! quero que seja verdadeiro mas só sei enganar."
De fato foi o máximo de emoções que já senti e sinto. Porque o clichê era tanto e a história era outra. Hoje vou falar de você pra todo mundo e passar aí na sua casa pra comer batata frita enquanto você rouba uma skol da despensa, e eu rio bem alto, abro a geladeira e comento todas as comidas. Você vai fechar e me dar um copo d'água e a gente continua sem dizer nada e se amando muito?
Ou três da manhã a gente decide viajar e eu deixo um recado no espelho. Quantos recados com seu nome foram deixados no espelho?
Te amo, te amo.
Era bom demais saber que alguem me conhecia mais do que qualquer um.
Não sei mais terminar, me dói. me dói lá dentro aonde ficam as lembranças bonitas que viram melancolia, as lembranças que por enquanto nunca mais serão renovadas; e me dói. Me dói porque era muito amor por tudo. Era beleza que arranhava as costas e rasgava a pele, um punhal às cinco da tarde na avenida central.
Eu queria dizer que era tudo muito lindo e não disse. Queria você mais perto de mim, tirar seus vícios, te deixar no céu.
E pensar que as coisas já viravam declínio naquele fim de tarde na rede, eu pensando na ternura que eu nao merecia e que nao merecia sofrer; você me olhando firme e pensando em dizer o que não falou.
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