segunda-feira, 28 de abril de 2008

pra não ser clichê

Quando dei por mim tava tudo ali: os pensamentos, as coisas boas, as surpresas; tudo mesmo.Engraçado que eu também gostava de pontos e de vírgulas, das máquinas de escrever do meu pai, ou apenas daquela, verde, amarela, cinza: era uma mistura de cores completamente incolor. Me sentava e apertava com cuidado as teclas, vendo os metais subindo, e descendo, me encantava por meus próprios dedos, pelas letras; e não havia história nem estória alguma no papel.A beleza era puramente exterior, e sempre foi, pra mim. Só que eram meus olhos e apenas eles que viam tanta coisa, e meus olhos vinham da alma e a alma é o espírito e o espírito não deveria ser o nosso interior? Vai ver que minha beleza exterior só existia de fato por causa do que tinha dentro. E quando as coisas foram sumindo, os finais de semana, a reza antes de dormir, os pensamentos naquela caixinha laranja de papelão, as brincadeiras, a pipoca e tudo mais, sumiu também a máquina sem cor. Talvez eu cresça e nunca mais me fascine tanto por qualquer outra coisa; talvez pelas livrarias; é, não sei.
Essa saudade é lembrança boa, com uma pitada de dor. Não chega nem a ser isso; é agonia, uma palavra na ponta da língua; uma música que não sai da cabeça. Pior que hoje em dia não vejo muita beleza no que tem alegria, talvez nem acredite mais nessa coisa de sem lenço e sem documento; pior e talvez até melhor que meus olhos hoje se fascinam por tudo que chora, e pede, e precisa. As coisas da vida ensinam o belo e te tornam amarga, ao mesmo tempo. E ao mesmo tempo é que sinto que tudo que me aconteceu me deixa bem e bem maior, e me tiram também tudo de dentro que me influenciava nas máquinas. Será que o desvanecer dos casos me trazem força ou desespero?
Pois bem, meus olhos que tanto viam; hoje em dia nem se fecham por mais de alguns segundos; e essa melancolia, esse melancólico sorriso verdadeiro.Nesse caso há sempre algum par , outro contra; o conforto e a vontade de nunca acordar. Tinha coisas que eu não suportava perder, coisas e pessoas – não vai você também, agora que não há mais ninguém, agora que a chuva não faz o mesmo barulho na janela e que o choro não vê mais por quem existir. Quando me aproximei do que queria lembrar, quis ficar triste, quis pedir à Deus alguma coisa, quis sofrer igual à todo mundo. Até quis escrever tormentas naquela coisa sem cor; e aí sabe o que notei? Que nem ela existia mais, e que não havia tais tormentas.
È por isso que quando sento-me à mesa pra escrever do que acho mais belo, acabo sempre óbvia, acabo sempre nesse pessimismo otimista- é o que a vida me deixou.



E não é pra ter pena, não, não é nada disso que estão pensando: é uma calma abatida, uma decepção confusa, uma certeza do tal bem maior, mas assim, bem lá no inconsciente.
Havia uma casa atravessando a rua, não era habitada no início, mas um dia ela apareceu toda nova. Nunca me passou pela cabeça imaginar as pessoas de lá; eram duas famílias, uma que reformou seu lado, a outra que deixou como era antes. E ficou tudo bonito com a coisa antiga e a nova, com as cores abatidas e com as fortes, e no final, aquela casa era eu, mesmo sem fazer muito sentido.E eu gostava da casa, justamente por ela ser dividida pela metade, por parecer duas, mas desde o início fora só uma; foram as pessoas e coisas que mudaram aparência e tudo mais.
E se eu lembrar agora que nada me irritava quando a gente subia a ladeira; nem mesmo as decepções de criança, sabe? Um dia chamei duas meninas pra me visitar e elas simplesmente não foram, e não avisaram, e acho que fiquei na janela até anoitecer. E no final nem liguei, nem reclamei, senti um aperto no coração e uma vontade de ensinar as coisas boas pro mundo por um segundinho só, e aí desci da janela correndo; e sabia bem o que me importava. Talvez eu me deslumbrasse com pouco; com a besteira, com o carinho, com a presença. Aquilo tudo fazia parte de mim por que ali eu era levada a sério, eu, uma criança que nem sabia escolher minhas próprias amizades.
E tudo era realmente feliz, perfeito, bonito e significativo naquela época: não sei mesmo por que a gente tem que aprender perdendo o que importa. É, é, no final é tudo um grande plano, tudo tem um motivo, e eu sei disso, hoje. Mas minha certeza é tão duvidosa quanto minha tristeza; meu sorriso é verdadeiro. Um verdadeiro pedido, um verdadeiro nada; e ainda assim, é meu tudo. E mais uma vez há gente que entende, e se alguém me perguntar a tal receita, nem sei o que responder: meu peito é cheio de tristeza de não saber como sentir. As coisas vem e vão, parece mágica, e realmente não sei mais o que considero bom e ruim, essencial, importante. Nem sei mais como procurar satisfação, antes de tudo sumir eu sabia exatamente o endereço da felicidade.
Fui uma criança realmente cheia de luz, é tão clichê isso, mas a gente imagina tanta coisa e tanta importância. Desde que pousei meus dedos nessas teclas prometi à mim mesma que não tornaria a escrever sobre as mesmas circunstâncias, havia idéias desconexas e uma vontade imensa de fazer tudo bonito. Tristeza não paga dívidas, mas também nem sei o que paga. Meu nada ocasional , minhas paixões, minhas saudades, minha alegrias- e olha que nem acredito nelas.
Gente, parece mais uma história de amargo fim, e na verdade é só beleza; viu como sei bem o que me interessa? È sim nessas coisas que mexem com a gente que há poesia, sabe. Quando comecei era tudo sobre esperança e ser feliz e gostar das coisas pequenas, e agora essa solidão sem fim.
Quer saber?
Fim.

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